Sexagem In-Ovo

A sexagem in-ovo é uma tecnologia inovadora que permite determinar o sexo de um ovo de galinha enquanto ele ainda está se desenvolvendo. Isso permite que os produtores de ovos incubem apenas as fêmeas, oferecendo uma alternativa ao descarte de pintinhos machos de um dia.

A tecnologia avançou rapidamente nos últimos anos, está amplamente disponível na Europa e é esperada no mercado dos EUA ainda em 2024. As empresas de sexagem in-ovo estão se apressando para expandir a tecnologia para atender ao aumento da demanda global.

Abate de Pintinhos Machos

A industrialização no setor avícola levou a uma bifurcação das raças que usamos para carne e ovos. As galinhas “de corte” usadas para carne são otimizadas para crescer rapidamente e converter ração em carne de maneira eficiente. As galinhas “poedeiras” usadas para ovos são otimizadas para pôr mais ovos rápido e de forma eficiente. Esta divisão de trabalho é a razão pela qual a carne de frango e os ovos são tão acessíveis hoje. No entanto, uma consequência indesejada é que os pintinhos machos das poedeiras não têm propósito econômico e são mortos imediatamente após o nascimento. Em uma prática extremamente impopular entre os consumidores que a conhecem, 6 bilhões de pintinhos machos de um dia são mortos a cada ano na indústria global de ovos, geralmente por maceração(eles são triturados vivos).

Para resolver este problema, empresas na Europa e ao redor  do mundo estão desenvolvendo a tecnologia de sexagem in-ovo, que permite que os produtores de ovos usem biotecnologia avançada para identificar quais ovos eclodirão machos e quais eclodirão fêmeas. Os ovos machos são removidos e destruídos durante o processo de incubação antes que os fetos possam sentir dor. Esses ovos machos podem ser transformados em um pó proteico e incorporados à alimentação de animais de estimação. Apenas os ovos de fêmeas são devolvidos à incubadora para eclodir, resolvendo o problema ético do abate de pintinhos machos.

Essa tecnologia, que agora está amplamente disponível na Europa, é mais cara no momento (cerca de 5 a 7 centavos de real por ovo no supermercado). Mas à medida que a tecnologia avança para maiores escalas, os custos diminuirão. A sexagem in-ovo também traz outras eficiências para as incubadoras, como liberar espaço que teria sido ocupado por ovos machos, ou permitir outras tecnologias como eclosão na fazenda ou vacinação in-ovo que anteriormente eram impraticáveis devido à necessidade de triagem de sexo após a eclosão. Os benefícios econômicos adicionais dessas práticas ajudarão a amortizar o custo da sexagem in-ovo.

Status Comercial Atual

União Europeia - Nos últimos anos, a tecnologia de sexagem in-ovo tornou-se amplamente disponível na Europa, estimulada por banimentos da prática de abate de pintinhos machos na Alemanha, França e Itália. Uma pesquisa original da Innovate Animal Ag indica que, em setembro de 2023, pelo menos 56,4 milhões da população atual de 389 milhões de galinhas poedeiras na União Europeia foram sexadas in-ovo. Isso indica uma penetração de mercado de 20% em apenas 5 anos. Esse número está crescendo rapidamente à medida que mais incubadoras implementam a tecnologia, a capacidade das máquinas aumenta e mais pesquisas melhoram a eficiência da tecnologia. Nos três meses seguintes à geração desse número de 15%, a sexagem in-ovo viu um aumento de 23% na capacidade global em um único trimestre. As galinhas brancas sexadas in-ovo custam cerca de €2,60 a mais do que as galinhas convencionais, ou cerca de 0,75 centavos de euro por ovo. As galinhas marrons têm um preço ainda menor. Esses ovos são então vendidos por cerca de 1-3 centavos adicionais por ovo.

Estados Unidos - A sexagem in-ovo estará disponível nos EUA no início de 2025, de acordo com um produtor de ovos que anunciou a introdução da tecnologia nos EUA no New York Times. Uma vez que uma máquina esteja em solo americano, é provável que a sexagem in-ovo se expanda rapidamente no mercado americano, dado que muitos stakeholders, incluindo The United Egg Producers, Vital Farms e Unilever, expressaram interesse na tecnologia. Ao contrário da UE, a adoção da tecnologia nos EUA será impulsionada pelo mercado, em vez de por proibições governamentais. Como muitas tecnologias inovadoras, veremos a adoção inicial pelo mercado mais premium, onde os consumidores já demonstraram disposição para pagar um pouco a mais por produtos relacionados a um melhor bem-estar animal. Com o tempo, a redução de custos e maiores eficiências serão fundamentais para uma adoção mais ampla.

Globalmente - Embora a sexagem in-ovo esteja atualmente concentrada na Europa, a tecnologia está despertando interesse globalmente. Isso inclui compromissos dos governos estaduais na Índia, compromissos da indústria no México, Brasil e Chile, investimentos em P&D dos governos australiano e japonês, e várias startups em Israel desenvolvendo a tecnologia.

Tecnologia

Existem várias abordagens tecnológicas para a sexagem de ovos, cada uma com prós e contras e cada uma em vários estágios de comercialização.

A sexagem in-ovo é implementada na fase de incubação da cadeia de suprimento de ovos, quando oss ovos fertilizados se desenvolvem dentro de uma incubadora. Quando estão prontos para serem sexados, eles são removidos da incubadora e passam por um circuito onde os ovos machos são removidos e processados em um subproduto como ração animal. Os ovos fêmeas são então devolvidos à incubadora para completar seu desenvolvimento. Depois de eclodirem, são então vendidos para produtores de ovos e as poedeiras são criadas da mesma forma que são agora.

Soluções de Sexagem de Ovos no Mercado

Duas abordagens amplas já foram introduzidas no mercado na Europa. Dentro de cada uma dessas abordagens, pode haver muitas maneiras de implementar a tecnologia, que trazem seus prós e contras.

A) Imagem Não-Invasiva

A tecnologia de imagem não-invasiva encontra uma maneira de olhar “através” da casca do ovo para determinar o sexo do embrião dentro dele. A Agri-AT, líder de mercado atual com 9 máquinas operacionais em 7 incubadoras, usa imagem hiperespectral para determinar a cor das penas do embrião. Isso só funciona para poedeiras marrons, uma vez que machos e fêmeas têm penas de cores diferentes. Essa solução, portanto, tem aplicações limitadas para mercados como os EUA, onde a maioria das poedeiras é branca. Outra empresa, Orbem, combina Inteligência Artificial com Ressonância Magnética para uma solução de imagem que funciona tanto para poedeiras marrons quanto brancas. Um benefício dessa classe de tecnologias é que elas não requerem consumíveis significativos, potencialmente permitindo que sejam mais baratas do que outras opções.

B) Análise por amostra de líquido

As tecnologias de Análise por amostra de líquido envolvem fazer um pequeno furo na casca do ovo, tirar uma amostra de fluido de dentro do ovo e, em seguida, realizar uma análise química ou biológica para determinar o sexo. Esse processo pode ser altamente automatizado para lidar com a capacidade das maiores incubadoras. Existem três empresas com soluções comercializadas: Respeggt, In Ovo e PLANTegg, cujas tecnologias variam em vários aspectos importantes, como o tipo de análise utilizado.

Outras Soluções em Desenvolvimento

Várias outras tecnologias estão em fases iniciais de testes, visando fornecer soluções de sexagem precisas, acessíveis e seguras para incubadoras no dia mais precoce possível de incubação.

A) Imagem Não-Invasiva

A Omegga, uma startup alemã, está trabalhando em uma tecnologia não-invasiva onde uma máquina de imagem é instalada diretamente dentro da incubadora onde os ovos estão se desenvolvendo. Em vez de remover os ovos da incubadora quando estão prontos para serem sexados, a máquina captura imagens espectroscópicas ao longo de vários dias. Tirando várias imagens do mesmo ovo à medida que se desenvolve, a tecnologia da Omegga poderia funcionar muito mais cedo no processo de desenvolvimento. Ela também elimina a necessidade de remover os ovos da incubadora para serem sexados.

C) Edição Genética

A edição genética pode ser usada para dar aos embriões machos um marcador genético que permite que sejam facilmente identificados e removidos ou que parem de crescer completamente. Importante ressaltar que estratégias de criação inteligentes fazem com que apenas os machos carreguem o traço genético editado. Nem as fêmeas nem os ovos que elas põem são geneticamente modificados.

Soluções baseadas em edição genética exigirão um trabalho substancial inicial para integrar as mudanças genéticas nas raças comerciais de poedeiras, que são altamente otimizadas e rigidamente controladas. No entanto, uma vez implementadas, elas poderiam potencialmente ser extremamente baratas e precisas e funcionariam assim que o ovo fosse fertilizado. Resta saber se os consumidores teriam preocupações em usar a edição genética dessa maneira, mesmo que os ovos que eles comem não carreguem nenhuma alteração genética.

D) Análise de Voláteis

Os ovos naturalmente liberam algum odor através de moléculas que conseguem escapar pela casca do ovo, chamadas voláteis. Laboratórios inovadores em todo o mundo estão desenvolvendo tecnologia que pode sexar ovos “cheirando” esses odores. As linhas de produção de ovos geralmente já usam ventosas de vácuo para mover os ovos, permitindo que essa tecnologia se integre facilmente à infraestrutura existente.

E) Imagem Espectroscópica

Nesta classe de tecnologia, um pequeno furo é feito na casca do ovo para permitir que uma imagem óptica seja tirada do embrião dentro dele. Essas tecnologias de imagem serão mais complexas e caras do que suas contrapartes não-invasivas, mas funcionariam em um estágio muito inicial da incubação.

F) Reversão de Sexo

Na avicultura, o sexo pode ser controlado por fatores fora da genética. A startup israelense SOOS tem um protocolo de incubação controlado por IA, que controla umidade, temperatura e vibrações sonoras para fazer com que embriões que são geneticamente machos se desenvolvam como fêmeas fenotípicas. Eles demonstraram a capacidade de eclodir fêmeas a uma taxa de 65%, com 11% delas tendo um genótipo masculino.

Desafios

Ainda não foi determinado quais soluções os produtores e consumidores nos EUA preferirão. No entanto, existem vários parâmetros importantes pelos quais as tecnologias serão avaliadas:

  • Preço: Os consumidores de ovos são conhecidos por serem particularmente sensíveis ao preço. Nos EUA, a sexagem in-ovo provavelmente será inicialmente usada para ovos que já carregam um preço adicional pelo foco em bem-estar animal (assim como carne de gado criado a pasto, ovos de galinhas livres, orgânicos), mas minimizar o custo adicionalserá importante. Notavelmente, o impacto no preço de varejo de 1 centavo por ovo (12 centavos por dúzia) visto na Europa é menor do que o prêmio de preço para ovos sem gaiolas nos EUA, que flutua em torno de US $1 por dúzia e representa mais de um terço do mercado dos EUA.

  • Produção e Velocidade: De acordo com a empresa de sexagem in-ovo In Ovo, existem cerca de 500 incubadoras comerciais no mundo. Essas incubadoras precisam criar grandes quantidades de poedeiras muito rapidamente para suprir as cerca de 4 bilhões de poedeiras necessárias para atender à demanda global de ovos a cada ano. Para cada poedeira, pelo menos dois ovos precisam ser sexados (um macho e uma fêmea). A tecnologia de sexagem in-ovo precisa ter uma produção e velocidade altas o suficiente para acompanhar essa produção. Dito isso, as tecnologias atuais são bastante modulares, o que significa que uma incubadora não precisa converter toda a sua operação de uma só vez. É provável que as primeiras incubadoras nos EUA a implementar essa tecnologia vendam tanto poedeiras sexadas in-ovo quanto convencionais.

  • Dia da Incubação: As empresas de sexagem in-ovo têm o objetivo de serem capazes de sexar ovos o mais cedo possível no processo de incubação de 21 dias. Isso é parcialmente para minimizar o ônus econômico nas incubadoras: quanto mais cedo os ovos machos puderem ser removidos, mais espaço livre na incubadora será recuperado. Há também uma questão de bem-estar animal: um estudo do governo alemão indica que após o 13º dia, a percepção da dor não pode ser descartada. Pesquisas futuras precisam ser realizadas nesta área para determinar em que ponto começa a percepção da dor embrionária.

  • Precisão: Os métodos atuais de sexagem manual geralmente funcionam com uma precisão de cerca de 98,5%, o que significa que a sexagem in-ovo deve ser idealmente igual ou mais precisa.

Percepção do Consumidor

Até agora, há apenas uma pesquisa sobre as percepções dos consumidores sobre o abate de pintinhos na América Latina. Uma pesquisa com 500 consumidores chilenos, encomendada pela Fundação Veg e realizada pela empresa multinacional de pesquisa de mercado IPSOS, descobriu que dois terços dos entrevistados chilenos concordaram que a indústria de ovos deveria tomar a iniciativa de investir em tecnologias de sexagem in-ovo sem esperar por qualquer determinação legal.

Nos Estados Unidos, pesquisa original encomendada pela Innovate Animal Ag mostrou forte interesse dos consumidores em ovos produzidos com sexagem in-ovo. De acordo com a pesquisa, apenas 11% dos compradores de ovos nos EUA sabem sobre o abate de pintinhos machos, e 48% pensam que os pintinhos machos são criados para carne. 47% dos consumidores (cerca de 122 milhões de adultos nos EUA) estão “extremamente” ou “muito” interessados em ovos produzidos com sexagem in-ovo; outros 35% (91 milhões) estão “ligeiramente” interessados. 71% dos compradores de ovos estão dispostos a pagar mais, com a disposição mediana de pagar de 36 centavos por dúzia. Esses dados mostram que os produtores que adotarem a tecnologia encontrarão uma base de consumidores disposta a pagar mais por esses produtos.

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